Através deste artigo e dos próximos pretendo motivar o leitor a ler a Bíblia para sua edificação e proveito próprio. Felizmente saímos há tempo de um período em que a Bíblia era “tabu” para o povo de Deus, reservada a poucos eleitos, que mais a estudavam com espírito crítico do que pastoral, mais para defendê-la do que torná-la conhecida, mais para alimentar a própria inteligência do que alimentar vitalmente a alma. Antes ainda do II Concílio do Vaticano vimos um rápido retorno às fontes de nossa fé, assistimos a um vivo desejo de conhecimento direto da Sagrada Escritura. Veio o Concílio, o qual imprimiu um vigoroso impulso à leitura, meditação, estudo do Livro Sagrado, de sorte que hoje somos espectadores de um despertar e de uma sede ardente do seu conhecimento direto, o qual se tornou matéria de estudo, texto escolar, argumento de discussão, tema de pregação.
Isso também é um “sinal dos tempos”.
A mudança rápida do mundo moderno chama o homem a rever a própria fé nos seus fundamentos, a reestudar e a procurar compreender o próprio destino, a conscientizar-se do seu próprio valor de ser inteligente e de espírito imortal. Não obstante os seus maravilhosos progressos, o homem descobre que eles não exprimem o tudo que ele sente em si mesmo, que seu espírito aspira a alguma coisa de mais sublime, que anela a metas inatingíveis somente com os meios da ciência e da técnica.
Nasce daqui a necessidade, nem sempre confessada, do conhecimento de Deus, do único Ser absoluto, não condicionado pelas mutações da natureza, pelos progressos humanos, pelas reviravoltas da história. Daqui a necessidade do conhecimento e do estudo daquele livro que nos fala de Deus, no qual o próprio se revela. Com efeito, “com a revelação – diz-nos o II Concílio do Vaticano – Deus quis manifestar e comunicar a si mesmo e os decretos eternos de sua vontade a respeito da salvação dos homens, a fim de os tornar participantes daqueles bens divinos que transcendem a compreensão de inteligência humana” ( Dei Verbum, 6 ).
Na Bíblia Deus faz-se palavra: revela-se a si mesmo como antes revelara-se na criação e manifesta ao homem o plano de misericórdia e de amor que desde os séculos eternos reservou para ele. “Na Sagrada Escritura…. manifesta-se a condescendência admirável da Sabedoria eterna, para que possamos apreender a bondade inefável de Deus e quanto ele, sempre solícito e providente para com a nossa natureza, tenha adaptado as suas palavras” (Dei Verbum, 13).
Poderíamos ainda dizer: Deus faz-se história na Sagrada Escritura: introduz-se poderosamente na história do homem, incapaz de guiar-se a si mesmo no caminho da felicidade; ele o toma, instrui-o e não mais o deixará até que alcance o seu destino eterno e bem-aventurado. A Bíblia é a História da Salvação, a história da intervenção de Deus na vida e no desenvolvimento do homem, a fim de o arrancar do destino trágico para o qual se encaminhara e recolocá-lo na sublimidade de filho de Deus, para a qual o tinha destinado desde a criação.
Que “todos os homens se salvem e alcancem o conhecimento da verdade” (1Tm 2,4), eis o plano estabelecido desde toda eternidade. Ao desenvolvimento deste plano visa toda a ação divina, da qual a Bíblia nos apresenta os traços mais salientes e nos mostra a sua concatenação nas palavras e nos fatos que ela contém. Deus começa inserindo o homem na sua comunhão mediante a comunicação de sua própria vida; depois do pecado promete o Redentor; escolhe para si um povo que o faz depositário da revelação e das promessas, instrui-o progressivamente enviando-lhe os seus porta-vozes especiais: os profetas; santifica-o e forma-o para si e pouco a pouco manifesta-lhe o seu mistério. Quando esse povo, através de várias experiências, longas e dolorosas, atinge a maturidade, realiza-se a História da Salvação mediante a encarnação do próprio Unigênito Filho de Deus, no seio da virgem Maria. O Verbo de Deus, feito homem, chamado com nome de homem, Jesus, torna-se autor da Salvação: inaugura a nova aliança no seu sangue, derramado para a redenção do homem, chama o novo povo de Deus, oferece-lhe os meios de salvação, une-os a si, de maneira inefável, fá-lo participante da sua própria vida e, na natureza humana da qual participa, coloca-o à direita de Deus no céu.
É coisa maravilhosa descobrir em toda a Bíblia a mão providencial de Deus que opera e conduz, age e deixa agir, indica e manda anunciar, promete e admoesta, e serve-se de tudo e de todos para atingir a sua finalidade de levar o homem – vezes sem conta rebelde – quase que contra a sua vontade, à salvação final no reino de Cristo.
É nestas linhas de compreensão da Sagrada Escritura que pretendo pôr o leitor, a fim de que, auxiliado também pelos próximos artigos, estimular a leitura das Sagradas Escrituras e possa ter sempre presente a Providência misericordiosa de Deus, que a outra coisa não visa senão à felicidade do homem.




